Trata-se de um tríptico em que, na parte superior, se tornam visíveis os movimentos de dança de personagens isolados num espaço interior, enquanto, na parte central, um padrão de traves brancas oculta os acontecimentos do interior do edifício, e, por fim, no espaço público, um homem oculta o seu rosto ao atar os sapatos. Neste vaivém de exposição e de ocultação ressalta o modo como um olhar vigilante controla todas as ações. Mas toda a dinâmica acaba por se tornar unidirecional: desde o ímpeto de libertação na dança até à reclusão da figura no espaço público, decorre um movimento descendente de gradual confinamento, tendo como desfecho a recaída na imobilidade do chão. Daí que, no seu conjunto, o tríptico se torne estanque devido à bidimensionalidade a que são submetidos todos os elementos – tendo como desfecho os três planos coloridos que seguem o movimento descendente das figuras. Nesta radical imobilidade são colocados os cidadãos que, no seu anonimato e passividade, são classificados, como diria Michel Foucault, de “corpos dóceis”. [Fernando J. Ribeiro]
Exposições coletivas
2024: MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Centro de Arqueologia e Artes de Beja, Portugal
Bibliografia
Fernando J. Ribeiro, «Micropolíticas» in MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Lisboa: Maiadouro, junho de 2024, cit. p. 19, rep. p. 35, 69.