Sem regras de actuação definida, René Bertholo não segue na sua obra uma gramática única, nem reconhece as definições estanques em que se encerram as linguagens da figuração e da abstracção. Com efeito os elementos presentes nas suas telas não possuem uma natureza precisa. E são eles que, do mesmo modo, convivem livremente nos seus quadros, sem estarem dispostos numa relação aparentada à ordem clássica da composição pictórica e à formalidade estabelecida entre os primeiros e segundos planos. De facto, bem patente nos trabalhos que compõem o seu percurso artístico, está antes o desejo de sublinhar os efeitos compositivos que decorrem da aglomeração e da sobreposição dos diferentes motivos que animam a totalidade das suas telas e a distância que cabe guardar em relação ao desvendar de possíveis interpretações e sentidos narrativos. Como Bertholo declarou numa entrevista em 2002: «Não conto voluntariamente nenhuma história. Cada pessoa constrói a sua». [Sandra Vieira Jürgens]
Em Homem de Negócios (1998), uma figura de costas é repetida sucessivas vezes, mas permanecendo sempre aqui, no lugar do observador. Enquanto a sua permanência lhe garante o sentido de privacidade e, portanto, o anonimato, o serviço de café – que duplica a sua figura – vai-se fragmentando consoante a pintura se repete em segmentos temporais, até à fusão total com o espaço público. [Fernando J. Ribeiro]
Exposições coletivas
2024: MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Centro de Arqueologia e Artes de Beja, Portugal
Bibliografia
Fernando J. Ribeiro, «Micropolíticas» in MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Lisboa: Maiadouro, junho de 2024, cit. p. 19, rep. p. 34, 53.