Salomé Lamas tem vindo a desenvolver a sua atividade num território que a própria apelida de “terra de ninguém”, isto é, assumindo uma perspectiva crítica e analítica em relação ao próprio medium com que trabalha (o vídeo, o filme ou mais amplamente a imagem em movimento). Recusando um território periférico e marginal tanto ao cinema quanto às artes visuais, a artista procura trabalhar no cruzamento possível e inalienável entre ambos, não promovendo a definição de géneros, investigando sim as possibilidades crescentes de edificação de uma linguagem pessoal que resulte tanto dos mecanismos próprios da ficção quanto dos mecanismos próprios do documentário. Com a apresentação simultânea do seu trabalho nos contextos do cinema e das artes visuais, e através da adopção de uma posição curiosa e interrogativa, Salomé Lamas tem vindo a desafiar os métodos convencionais de produção cinematográfica, os modos de exibição e as fronteiras entre as várias formas fílmicas e artísticas de expressão estética. A obra Theatrum Orbis Therarum – uma instalação – constitui-se como um exemplo notável deste universo, denotando o interesse da artista na relação intrínseca entre narrativa, memória e história e usa, à semelhança de outras obras da artista, a imagem em movimento para explorar o aparentemente irrepresentável ou historicamente invisível. [Ana Anacleto]