Com um trabalho associado à herança e defesa das comunidades indígenas americanas, Jimmie Durham – que pertencia ao povo Cherokee -, possui um conjunto de obras inspiradas no livro de José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, que o autor assumiu como uma referência para si e para a história do século XX. Partindo do ano de 1936, tece uma abordagem à modernidade e, igualmente, ao totalitarismo que contaminou a Península Ibérica e a Europa na primeira metade do século XX. A obra Quem Disser parte de um conjunto de quatro outras peças do acervo da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, integradas em 1997, que resultaram de uma residência artística que o artista e ativista realizou em Portugal, em 1995, a par da exposição intitulada História Concisa de Portugal, apresentada na Galeria Módulo, no mesmo ano, naquela que foi a primeira exibição do seu trabalho no país.
De feição artesanal, esta peça realizada com madeira e ramos de árvore e uma peça de roupa, uma camisa, inclui também uma citação datilografada do texto de José Saramago, cujo protagonista é o heterónimo Ricardo Reis, uma criação de Fernando Pessoa:
«Quem disser que a natureza é indiferente às dores e preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbam a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua, e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza que toda se está compadecendo do aflito devedor. Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a proposição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não reparam que doutra maneira não poderia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros» [José Saramago, Ano da Morte de Ricardo Reis]
Esta é, sem dúvida, a manifestação de um universo poético, uma reflexão sobre a importância da poesia da vida, sobretudo, sobre o potencial de leveza que oferece à leitura do mundo. Por via de Saramago, falamos de Pessoa, da criação de seres poetas, das qualidades múltiplas do ser que subjaz ao poeta moderno e, por intermédio da voz narradora, também da inseparabilidade do humano e natural, do pessoal e universal, bem como de uma natureza que, em 1936, insistia em chover incessantemente perante a dura e nublada realidade humana que se vivia nesses anos de estado nacional-colonialista em Portugal. [Sandra Vieira Jürgens]
Exposições individuais
1995: História Concisa de Portugal, Galeria Módulo, Porto, Portugal
2000: Initiare, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal
Exposições coletivas
2003: Continuare – Trabalhos da Coleção IAC, Bienal da Maia – Maia: Centro Comercial Venepor e Fórum da Maia, Portugal
2004: Eu, Tu, Eles, Centro de Arte e Espectáculos (CAE), Figueira da Foz, Portugal
2019: Jimmie Durham – Acha que minto?, Espaço Fidelidade Arte, Lisboa, Portugal
2019: Jimmie Durham – Acha que minto?, Culturgest, Porto, Portugal