Paulo Catrica pertence a uma geração de fotógrafos que reformulou a contemporaneidade da fotografia documental portuguesa na década de 1980. O seu contributo é fundamental para a representação da fotografia de paisagem portuguesa na pós-modernidade, já que realiza a transição tardia, mas compreensível no quadro da arte portuguesa, do entendimento modernista de uma fotografia estética da paisagem para o seu registo documental, arquivístico e de pendor topográfico, a exemplo do que fora definido pelo movimento New Topographics norte-americano, da década de 1970. O seu trabalho tem sido caracterizado por um coeso e incessante registo documental do território, desde a paisagem natural à construída, constituindo um repertório documental crítico sobre o desenvolvimento do país. A sua formação histórica confere uma evidente complexidade de análise e capacidade relacional a todo o seu trabalho fotográfico. A série Passos Perdidos foi realizada na Assembleia da República e revela muitas das qualidades documentais e históricas assinaladas. Consideraram-se duas obras fotográficas desta série, a sala do Grupo Parlamentar do CDS e do PCP, porque, no atual mapa político democrático do país, estes dois partidos testemunham a pulverização do nosso panorama ideológico e a transição para o populismo. As duas imagens adquirem, por isso, um simbolismo histórico e uma pertinência política, coerente com a filosofia de trabalho do autor e com a expressão da fotografia documental portuguesa atual. [CAAC 2022]
Exposições coletivas
2024: MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Centro de Arqueologia e Artes de Beja, Portugal
Bibliografia
Fernando J. Ribeiro, «Micropolíticas» in MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Lisboa: Maiadouro, junho de 2024, cit. p. 18, rep. p. 31, 83.