Num país até há relativamente pouco tempo renitente a olhar de modo crítico o seu passado recente, tanto ao nível da análise científica, como nas mais diversas expressões artísticas, a história material e subjetiva da Guerra Colonial, e subsequente processo de descolonização, continuam a pairar no imaginário coletivo como feridas ainda não totalmente cicatrizadas. Daniel Barroca tem explorado, há mais de uma década, essa via, numa linha de trabalho aberta pela descoberta de um álbum com memórias fotográficas de guerra do seu pai na Guiné-Bissau, numa sequência de projetos que entrecruzam as suas apreensões perante o que aí encontrou, com dados da sua própria biografia. Mais do que um testemunho documental, as suas obras sedimentam uma fissura hermenêutica que acaba por potenciar um mal-estar no espectador, atirado para um voyeurismo involuntário e perturbante. Entre a morte e a celebração da vida e do companheirismo, repousa um fundo de verdade que pressentimos inalcançável. Essa distância física e temporal é a mesma que arrasta o artista para uma posição de desconforto partilhado, nele agudizado pela relação familiar imediata. O silêncio da história quebra-se como uma partitura de fragmentos soltos, num contínuo que assimila passado e presente. No entanto, o que prevalece é o silêncio: interpretativo e visual, como se do peso da representação nada mais sobrasse que um interminável clarão, onde a imagem se transforma em memória atuante e futura, literalmente riscada na superfície destas ampliações fotográficas. [CAAC 2023]