Com uma prática eminentemente reconhecida no campo da fotografia, principalmente através da autorrepresentação, Júlia Ventura apropria-se dos cânones da modernidade clássica para os subverter. A figura da mulher-modelo desliza criticamente para uma forte afirmação da mulher-autora, para um empoderamento identitário iniciado já na década de 70 do século passado, num percurso feito entre Portugal e os Países Baixos. Concomitantemente, tem mantido uma prática regular de meios ligados ao vídeo, à performance, à instalação e também à pintura. Este percurso concede-lhe, a par de Helena Almeida, um estatuto único na arte portuguesa contemporânea, nomeadamente num registo onde a desconstrução da imagem fotográfica do autorretrato se radicaliza com eficácia ímpar. Na sua obra, as questões da identidade e do corpo assumem uma crítica ao estatuto da imagem fotográfica na modernidade clássica – nomeadamente no balanço desequilibrado entre autor e representação de género no (auto)retrato -, como também a exposição de um “eu” que, não sendo a artista nem a sua persona, nelas se ancora. [CAAC 2023]