Vindo de uma pintura geometrizada e concreta, Joaquim Rodrigo passa a desenvolver, desde 1959, no momento em que renuncia ao essencialismo e à rigidez neoplasticista, uma nova figuração com motivos geométricos e linhas orgânicas em composições de fundos cor de terra, inspiradas nas expressões plásticas dos povos da região da Lunda, no norte de Angola, ou dos aborígenes australianos. Joaquim Rodrigo, como muitos artistas contemporâneos, cruza as referências da abstração europeia com as culturas antigas não ocidentais, incorporando elementos das artes pré-colombiana, egípcia, chinesa, africana, aborígene australiana e amazónica. No caso da arte africana, a apropriação de referências é realizada não de uma forma generalista, mas a partir de uma comunidade específica: a dos tshokwe da Lunda Norte, região do Nordeste de Angola, a província dos diamantes, cuja pintura contemporânea foi estudada e apresentada por José Redinha, Conservador do Museu do Dundo, na publicação Paredes Pintadas da Lunda (Lisboa: Companhia de Diamantes de Angola. Serviços Culturais, 1953). Sem ter viajado ao lugar, Joaquim Rodrigo baseia-se nestas pinturas executadas nas paredes de argila das casas – sinais, figuras, letras, palavras, com recurso a um leque de cores composto por vermelhos, pretos, brancos, ocres, castanhos, amarelos e cinzentos numa superfície monocromática – para transpor, para a tela, expressões artísticas que eram realizadas na comunidade e tinham um carácter popular e efémero. [Sandra Vieira Jürgens]