Fernando Lemos foi um artista que construiu uma obra singular entre Portugal e o Brasil, os dois países que marcaram o seu percurso. Em Portugal, ficou sobretudo associado à fotografia de cariz surrealista, realizada entre 1949 e 1952, apenas redescoberta e valorizada após a Revolução de Abril. No Brasil, onde se exilou voluntariamente em 1953, desenvolveu um trabalho que lhe trouxe maior reconhecimento, marcado pelo diálogo entre a pintura, o desenho, o design, a cenografia, a fotografia e a poesia, numa prática multidisciplinar que sempre recusou classificações rígidas. A série de fotografias que realizou em 1963 no Japão resultou da viagem realizada com uma bolsa de investigação concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1962, que permitiu a Fernando Lemos estudar durante seis meses a caligrafia e a arte japonesa. Regressou posteriormente ao Japão, em 1977, para uma segunda visita de trabalho com o Museu Namban, em Nagasáqui. Este conjunto de quatro fotografias é particularmente relevante no percurso multidisciplinar de Fernando Lemos, pois contempla a influência do pensamento e da cultura orientais na sua prática artística. Realizadas em Quioto e Kobe, distinguem-se pela composição e pela variação de escalas ensaiadas com o recurso à figura humana. Num dos casos, a omnipresença do tronco distorcido de uma árvore em primeiro plano, símbolo de ancestralidade, sobrepõe-se à passagem de duas figuras femininas na rua. Noutra fotografia, o chão preenche parte do enquadramento, revelando na parte superior da imagem, uma fila de estudantes com uniformes escolares, captadas de costas, em fila indiana, no seu percurso habitual. O desequilíbrio formal da composição acentua o vazio, a distância e afastamento formal com o país que tanto o marcou. Por fim, o retrato feminino desta série é o da guia e tradutora que acompanhou Fernando Lemos e a sua mulher durante a estadia no Japão. [CAAC 2025]