A dissolução da presença humana em monumentais estruturas geométricas é abordada por Eugenio Dittborn,com La Ciudad en Llamas (1994), constituída por quadrículas e padrões de círculos às quais se sobrepõem impressões de imagens, oriundas de diversas fontes e áreas culturais. No título da obra, está inscrita uma tragédia, que vai desaparecendo consoante as imagens perdem escala, quando comparados com a escala das quadrículas e dos enormes padrões de círculos, que envolvem as figuras. Mas a dissolução da tragédia contínua, também, pela leveza infantil das ilustrações da cidade em chamas da rapariga que dança. O sorriso que lançamos às ilustrações, ou ao pintor subaquático, afasta por completo qualquer constrangimento pelo assassinato do líder do cartel da droga; que ficará ainda mais distante ao ser duplicado pela teatralidade da decapitação de Holofernes. O vaivém do drama para a comédia tem o seu desfecho nos comentários do artista às legendas, quando coloca um “Em vez de”, que passa sempre por uma regressão, na alusão a uma morte que pode ser envolta em chocolate, ou no corpo da mãe. Quanto mais o lastro de destruição se vai tornando um produto da imaginação, mais a atmosfera acinzentada das impressões vai pertencendo ao campo de uma abstração que neutraliza toda a carga dramática. Daí a marca do silêncio na fotografia em perfil de Mondrian que, encostado às suas pinturas, as reduz a ínfimas grelhas que deverão rimar com as enormes quadrículas, no interior das quais os nossos medos mais escondidos se tornam meras fantasia infantis. Numa cruz que se dobra e desdobra sem cessar, cabem todos os nossos fantasmas, que afastamos com uma dança rodopiante, até o real e a ilusão serem uma única e mesma substância. [Fernando J. Ribeiro]
Exposições coletivas
2000: Initiare, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal
2003: Continuare – Trabalhos da Coleção IAC, Bienal da Maia – Maia: Centro Comercial Venepor e Fórum da Maia, Maia, Portugal
2024: MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Centro de Arqueologia e Artes de Beja, Portugal
Bibliografia
Fernando J. Ribeiro, «Micropolíticas» in MICROPOLÍTICAS: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Lisboa: Maiadouro, junho de 2024, cit. p. 20, rep. p. 38-39.