António Poppe alia a sua prática artística à meditação e às filosofias orientais, mas também a uma relação íntima com a leitura e com a recitação. O artista conjuga a sua obra plástica com ações performativas em que recita, de forma xamânica, poemas seus, citações, apropriações ou poemas de outrem, que por vezes decora. O ato de “saber um poema de cor” remete, etimologicamente, para “uma memória do coração” e é nesse entendimento que ocorrem as récitas do artista: são poderosos momentos catárticos em que o poema é convocado a partir de dentro do corpo. É, da mesma forma, a partir de dentro do corpo e da experiência vivida do corpo que podemos ver a sua obra plástica, frequentemente feita de parcelas ou recortes de um desenho potencialmente infinito, ou de recortes de imagens variadas, que se acumulam numa mitologia pessoal em palimpsesto. Este Tambor apresenta essas mitologias pessoais numa mandala cujos eixos geométricos são definidos por círculos recortados de desenhos a tinta-da-china, fruto de uma pesquisa do artista sobre corais. Sobrepõem-se depois inúmeras imagens, pessoais, ou de brochuras e revistas, e ainda componentes caligrafadas pelo artista com excertos do Rig Veda, o Livro dos Hinos hindu, em sânscrito. A mandala tem originalmente a função de guia espiritual e a de proporcionar uma tranquilidade propícia à prática da meditação, e representa também um microcosmo, uma versão reduzida do universo. Nesta obra do artista esse vislumbre de universos possíveis, do infinito dentro de um círculo que remete para o eterno retorno, é feito de imagens mundanas combinadas e convoca tanto uma experiência do mundo individual como coletiva. [Mariana Pinto dos Santos]
Exposições individuais
2019: Mil órbitas, Galeria Zé dos Bois, Lisboa, Portugal
Exposições coletivas
2023: NON FINITO: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, Portugal
Bibliografia
Fernando J. Ribeiro, «ALIEN DREAMS» in NON FINITO: Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Lisboa: Imprensa Nacional–Casa da Moeda, julho de 2023, cit. P. 16, rep. p. 44, 97