Com uma dedicação exclusiva à prática da pintura, Gil Heitor Cortesão desenvolveu uma curiosa técnica baseada na aplicação de tinta a óleo na parte de trás de placas de vidro acrílico transparente. Esta técnica permite-lhe alterar o aspecto habitual da pintura a óleo (evitando a textura ou a marca do pincel), conferindo uma aparência gráfica e menos orgânica às superfícies pintadas. É interessante pensar na inversão natural de procedimentos que esta técnica implica – o artista tem de inverter todo o processo de execução, pensando a sucessão de camadas em função do resultado final pretendido, levando-o a trocar o princípio por aquilo que seria habitualmente o fim, e trabalhando a partir de uma ideia de avesso. Pintando a partir de imagens preexistentes (ou da mistura de elementos recolhidos a partir de vários referentes), Cortesão revela-se empenhado na manutenção dos valores modernistas e na sua expressão nos campos da arquitetura e do design. Ao assumir o acaso e o erro como parte do processo, e ao tornar visíveis linhas, escorrimentos, distorções, borrões e alterações radicais de escala, as suas pinturas constituem-se também enquanto território de exploração plástica e cromática que escapa a um aparente sentido programático. A obra Camuflagem configura-se como um excelente exemplo desse encontro entre um programa conceptual criado a partir de um referente arquitetónico e a sua quase obliteração por meio da pintura enquanto procedimento plástico. [Ana Anacleto]
Exposições individuais
2020: Bring the Boys Back Home, Galeria Pedro Cera, Lisboa, Portugal