O trabalho fotográfico de José Luís Neto tem-se centrado na materialidade fotográfica como agente catalisador de questões formais. Neste sentido, apresenta uma abordagem inédita no panorama fotográfico português, ao adotar uma experimentação, diríamos, alquímica e arqueológica, sobre a matéria constituinte da imagem fotográfica. A sua metodologia não é a da representação de algo, antes a apresentação do que forma as imagens, seja o seu suporte ou a sua emulsão, incorporando nessa presentificação os efeitos da sua deterioração, erro ou acaso. Assim, o seu trabalho é também uma reformulação de significado da fotografia, particularmente interessante quando recorre a imagens históricas, como é o caso desta obra. A simples menção ao nome de Carlos Relvas remete para a importância histórica da imagem, mas o que o fotógrafo nos revela é a matéria “pura da emulsão” que serviu de suporte a uma representação que não sobreviveu ao tempo. A partir daqui, desta abstração que teve como origem uma figuração, gera-se o poder semiótico da fotografia que, na obra de José Luís Neto, é basilar. [CAAC 2024]