Emídio Agra é artista plástico com formação em filosofia e pintura. Ao longo de mais de três décadas, construiu uma obra singular e consistente, marcada pela reutilização de fragmentos do quotidiano – restos de objetos descartados e materiais efémeros –, transformados em constelações poéticas e narrativas. Esses objetos, muitas vezes investidos de uma dimensão performativa, assumem-se como alegorias da experiência humana, convocando o tempo, a memória e a caducidade. A sua prática assenta numa sensibilidade particular para recolher vestígios, resíduos e fragmentos, reorganizando-os em composições que escapam à função original para se tornarem imagens mentais e dispositivos poéticos. São objetos de múltiplas configurações, espectros de coisas reconhecíveis que, despojadas da utilidade, reencontram novas possibilidades no imaginário. Essa metamorfose, feita de associações inesperadas e justaposições improváveis, confere à sua obra um lugar singular no panorama da arte contemporânea portuguesa. K, la ville, la morgue (2018) é um desses “objetos-poema”, composto por fragmentos e materiais do quotidiano transfigurados. A obra afirma um equilíbrio instável entre palavra e imagem, entre o poético e o performativo, ecoando citações e referências num espaço onde realidade e ficção se entrelaçam. [CAAC 2025]