Gaëtan é uma figura incontornável da arte contemporânea portuguesa. Nascido em Angola, viveu a maior parte da sua vida adulta em Portugal. Desde o fim dos anos 1970, Gaëtan dedicou-se à prática do desenho, com especial incidência no autorretrato. A partir de 1981, trabalhou obsessiva e persistentemente a sua própria imagem como tema. A sua produção caracteriza-se pela atenção minuciosa à identidade, memória e à passagem do tempo, onde pequenas variações, às vezes quase impercetíveis, na forma, no gesto ou no olhar, marcam cada peça. Ele próprio rejeitou muitas vezes o termo “autorretrato” na aceção mais tradicional, preferindo conceber esses desenhos como modos de interpretar o que vê, o que vive, o reflexo interno do sujeito que é ao mesmo tempo artista e personagem. Importante também é o seu empenho estético: rompeu com academismos, variou técnicas, usou o desenho como principal meio de expressão e, curiosamente, desenhava com a mão esquerda – apesar de destro – para evitar hábitos e vícios que pudessem adormecer ou banalizar o gesto criativo. Participou em exposições coletivas internacionais (como a XXI Bienal de Paris em 1980, ou “Drawing Towards a Distant Shore: Selections from Portugal”, em Nova Iorque, entre outras) e realizou várias mostras individuais de relevo em museus portugueses, como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian ou o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado. Gaëtan deixou um legado artístico singular, centrado numa busca constante de si mesmo como matéria de arte – uma procura que atravessa, faz vibrar e repensa os métodos, os gestos e o olhar. Do Sermão a Jan Sanders (1985) é uma instalação de Gaëtan apresentada em 1985, no Museu Nacional de Arte Antiga. A obra propõe um percurso visual e simbólico conduzido por desenhos que culminam na pintura São Jerónimo, de Jan Sanders van Hemessen, em exposição permanente no museu. Inspirada na estrutura de um sermão, convida à reflexão sobre o corpo, a espiritualidade e a finitude. Do Sermão a Jan Sanders é um trabalho composto por um conjunto de nove desenhos. Em 2022, três desses desenhos foram adquiridos para a coleção da Caixa Geral de Depósitos. A CACE – Coleção de Arte Contemporânea do Estado integra os seis desenhos restantes. A incorporação dos desenhos Do Sermão a Jan Sanders na Coleção constitui uma oportunidade de articular um diálogo com outras tradições e figuras artísticas. O conjunto de desenhos serve para inaugurar pontes entre o universo intimista e autorreferencial de Gaëtan e o desenho de modelo nu – algo que o artista praticava com frequência -, oferecendo a oportunidade de apreciar não apenas o tema, mas o modo de trabalhar de Gaëtan, o olhar prolongado, as marcas do tempo, as transformações subtis. [CAAC 2025]