A obra de Pedro Calapez evidencia, nos anos 1980, uma certa linearidade riscada na camada pictórica ainda fresca, que faz aparecer a aura da figuração, reabrindo sugestões narrativas aos pressupostos essenciais da pintura abstrata. Porém, a sua pintura prefere acentuar uma inventividade que convoca, em partes iguais, uma laboriosa e continuada gestão cromática, o ritmo e a ambiguidade expressiva da sua presença, recorrendo a uma superfície invariavelmente matérica e texturada na subtil passagem do pincel. Plana, testemunha de uma economia gestual de grande rigor ao nível da composição, a pincelada de Calapez assume-se ainda generosa na sua experiência cinestésica, conquistando, desde cedo, uma intensidade visual centrada na ideia de que, apesar do contexto interdisciplinar pós-minimalista, a pintura pode suscitar uma forte experiência retiniana, apelando à sua concentração contemplativa. Por outro lado, a combinação do espectro cromático resulta, em toda a obra de Calapez, como uma fonte de prazer estético que, a partir de uma plasticidade incomum, recupera ainda um genuíno sentimento e experiência do belo. Observar a contida justaposição destes campos de cor converte esta obra num exercício de puro deleite e, ao mesmo tempo, de franca e entusiasta reflexão. [David Santos]