Eduardo Nery 2023

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A mostra Eduardo Nery 2023 está patente no Forte de Sacavém e no Museu da Cerâmica de Sacavém, partilhando com o público o legado artístico do autor. Desta forma evocam-se 10 anos após o seu falecimento. No Forte de Sacavém podem ser vistos 10 retratos do artista plástico que registam cada década da sua vida, dando a conhecer ao público uma perspetiva mais intimista da vida do artista.

Eduardo Nery, Estruturas Ambíguas II, 1969. Fotografia: Google Arts Project

Ao longo da sua vida artística Eduardo Nery trabalhou com diferentes materiais e suportes, desde a pintura, desenho, gravura, fotografia, azulejaria, vitral, mosaico, entre outros.

A sua obra está presente em diferentes coleções, nomeadamente na Coleção de Arte Contemporânea do Estado, que incorpora no seu acervo quatro obras do artista.

«DARK SAFARI» inaugura novo ciclo de exposições no Museu do Côa e no Centro Cultural de V. N. de Foz Côa

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Kiluanji Kia Henda, In the Days of a Dark Safari #1, 2017. Cortesia do Artista

O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, inaugurou no dia 17 de fevereiro, a exposição «Dark Safari – Obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado» no Museu do Côa e no Centro Cultural de Vila Nova de Foz Côa. A mostra, com curadoria de Sara & André e de Manuel João Vieira, integra mais de 40 obras de autores nacionais e internacionais, apresentadas em dois espaços de 18 de fevereiro a 30 de julho de 2023.

Inauguração da exposição Dark Safari, no Museu do Côa e no Centro Cultural de Vila Nova de Foz Côa. Fotografia: Arlindo Homem / DGPC

Resultante de uma parceria entre a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), a Fundação Côa Parque e o Município de Vila Nova de Foz Côa, esta exposição dá início a um programa de circulação da CACE por todo o território nacional, no quadro de uma estratégia de descentralização da arte contemporânea que envolverá instituições públicas e privadas.

Dark Safari coloca peças do acervo da CACE em diálogo com as gravuras rupestres do Vale do Côa, questionando abertamente conceitos como “artista”, “território” e “paisagem”. O resultado é um “excêntrico safari”, tendo como referência a obra do artista angolano Kiluanji Kia Henda.

Exposição Dark Safari, no Museu do Côa e no Centro Cultural de Vila Nova de Foz Côa. Fotografia: Arlindo Homem / DGPC

Para o ministro da Cultura, “é simbólico que a primeira mostra da CACE aconteça em Foz Côa, um território de baixa densidade, distante das áreas metropolitanas, com uma paisagem profundamente marcada pelas primeiras manifestações artísticas do Homem, de certa forma ‘berço’ do que hoje apelidamos de arte pública”.

Esta exposição reflete “o grande investimento do Governo na Arte Contemporânea, materializado na criação da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC), com uma linha de apoio em 2023 de dois milhões de euros, e também na política de aquisições e programação associada à CACE, cujo orçamento ascende este ano a um milhão de euros”, afirma Pedro Adão e Silva.

Com obras de: A.R. Penk, Ana Cardoso, Ana Manso, Ana Pérez-Quiroga, André Cepeda, Andy Warhol, Armanda Duarte, Bruno Pacheco, Catarina Botelho, Diogo Bolota, Eduardo Matos, Fernão Cruz, Francisca Carvalho, Gabriel Abrantes, Gonçalo Barreiros, Gustavo Sumpta, Helena Almeida, Hugo Canoilas, Jimmie Durham, João Fonte Santa, Joaquim Rodrigo, Jorge Queiroz, José Luís Neto, Kiluanji Kia Henda, Luís Lázaro Matos, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Mário Cesariny, Mattia Denisse, Nikias Skapinakis, On Kawara, Patrícia Garrido, Pedro A.H. Paixão, Pedro Sousa Vieira, Pizz Buin, Renato Ferrão, Rui Calçada Bastos, Sara Bichão, Susana Gaudêncio, Tiago Alexandre, Tiago Baptista, Vanda Madureira.

Folha de sala da exposição “Dark Safari” em Língua Gestual Portuguesa com legendas – YouTube

«Quem conta um conto…», Paula Rego em Serralves, até 30 de abril de 2023

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A exposição Quem conta um conto acrescenta um ponto…, recentemente inaugurada no Museu de Serralves, no Porto, constitui uma oportunidade para apreciar uma quantidade assinalável de obras de Paula Rego (Lisboa, 1935 – Londres, 2022).

Paula Rego, Corredor, 1975

Partindo de um ditado popular que se utiliza para indicar que cada pessoa acrescenta pormenores seus quando relata um mesmo acontecimento ou história, a mostra salienta a dimensão narrativa e as referências ficcionais na pintura e nos desenhos de uma das artistas portuguesas com maior reconhecimento nacional e internacional.

Ao longo da sua trajectória, Paula Rego trabalhou sobre diversas obras literárias e sobre o imaginário dos contos populares e tradicionais, relacionando-os com acontecimentos e aspectos da sua história pessoal e da nossa história coletiva, especialmente temas como a condição feminina e o seu papel na sociedade.

Paula Rego, Homenagem a Dubuffet, 1985

Organizada com obras datadas entre 1975 e 2004, esta exposição apresenta vinte e uma peças, e entre elas três que integram a Coleção de Arte Contemporânea do Estado – Corredor (1975), A Grande Seca (1976), Homenagem a Dubuffet (1985) – em depósito na Fundação Serralves Museu de Arte Contemporânea.

A exposição pode ser vista até 30 de abril de 2023.

Exposição retrospectiva de Armanda Passos na Fundação Champalimaud, até 31 de dezembro 2022

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José Paulo Ruas/DGPC/Arquivo de Documentação Fotográfica
Armanda Passos, Sem título, 1984.
José Paulo Ruas/DGPC/Arquivo de Documentação Fotográfica

A pintora Armanda Passos (1944-2021) está a ser homenageada no Centro de Exposições da Fundação Champalimaud na primeira retrospetiva da sua obra. A exposição decorre até 31 de dezembro de 2022, e tem como curadora Fabíola Passos, filha da artista.

A exposição integra obras de coleções públicas e privadas, que só agora, após o seu desaparecimento, terão visibilidade pública e nos darão a conhecer o processo criativo, intenso e inventivo da autora.

De entre as cerca de 80 obras em exposição, pode ver-se uma das obras da autora, um desenho a carvão de 1984, que integra a Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Exposto pela primeira vez na mostra “Homenagem dos artistas portugueses a Almada Negreiros”, na Galeria Almada Negreiros, em 1984, este trabalho da autora foi distinguido com o II Prémio de Pintura e Desenho.

Armanda Passos licenciou-se na Escola Superior de Belas Artes do Porto e expôs as suas obras a partir de 1976. Morreu a 19 de outubro de 2021, aos 77 anos.

«Histórias de todos os dias. Paula Rego, anos 70», Casa das Histórias Paula Rego, até 21 de maio de 2023

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Paula Rego, Burro Burro, 1974

A exposição Histórias de todos os dias. Paula Rego, anos 70 pode ser vista na Casa das Histórias Paula Rego até 21 de maio de 2023.

A mostra, comissariada por Catarina Alfaro, curadora e coordenadora da programação e conservação da Casa das Histórias, reúne obras do período criativo da artista que se estende de 1969 até o final da década de 1970. Nesta fase, Paula Rego (1935 – 2022) produziu pinturas a partir do universo de contos de fadas e da tradição oral portuguesa, além de desenhos em que, numa linguagem visual onírica e fantástica, por vezes próxima do surrealismo, registou cenas do seu quotidiano e memórias infantis e familiares.

De entre as cerca de 115 obras em exposição, a que se soma documentação da época, o público poderá ver a obra Burro Burro, um guache sobre papel, de 1974, que integra a Coleção de Arte Contemporânea do Estado, em depósito no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra.

«PORQUÊ? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago – Obras das coleções MNAC E CACE»

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Está patente até dia 08 Janeiro de 2023 no MNAC a exposição «PORQUÊ? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago», no ano em que se celebra o Centenário do seu nascimento (1922-2010).  

Porquê? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago,
Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa © Hugo David, 2022

Com curadoria de Ana Matos, e integrada no Centenário de Nascimento de José Saramago (1922-2010), a mostra apresenta 40 obras de arte de 29 artistas portugueses, produzidas entre 1895 e 2016, e que integram as coleções do MNAC e da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE).

Porquê? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago,
Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa © Hugo David, 2022

A conexão proposta entre as obras e os textos do escritor é inspirada na frase “toda a literatura é um palimpsesto”, referida por Saramago numa entrevista dada por ocasião de uma viagem à América Latina. O termo palimpsesto, significando “raspar para escrever de novo”, é aqui evocado como o território em que a Arte acontece, como sucessão de camadas de memórias, referências, com tempo e espaço próprios que congregam em si a existência presente, passada e futura.

Porquê? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago,
Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa © Hugo David, 2022

A seleção das 40 obras partiu da identificação de um conjunto de temas recorrentes e fundamentais no pensamento de José Saramago, tendo sido criado, desde o início, um diálogo ativo e constante entre obras/artista e o universo do escritor. Nesse sentido, o espaço expositivo é organizado em 4 grupos que abordam o mesmo número de temas: Direitos humanos; Alteridade e identidade; Sustentabilidade; Memória e palavra.

 

Porquê? A Arte Contemporânea em Diálogo com o Pensamento de José Saramago,
Museu Nacional de Arte Contemporânea, Lisboa © Hugo David, 2022

Representando diferentes gerações e oferecendo expressões e sensibilidades artísticas distintas, a exposição apresenta obras de Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, Ana Vieira, André Cepeda, António Pedro, António Sena, Bartolomeu Cid dos Santos, Carlos Nogueira, Fernando Brito, Fernando Calhau, Fernando Lemos, Filipa César, Helena Almeida, João Tabarra, João Vieira, Jorge Molder, José de Brito, Júlia Ventura, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Júlio Resende, Lourdes Castro, Luísa Cunha, Nikias Skapinakis, Paulo Nozolino, Pedro Gomes, Querubim Lapa, Salette Tavares, Vasco Araújo.

MNAC: PORQUÊ? (museuartecontemporanea.gov.pt)

«Memórias Futuras» Aquisições 2019, Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, Abrantes, Dezembro 2021 a Abril 2022

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Exposição das obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado adquiridas em 2019. Patente até o dia 3 de Abril de 2022, no Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, em Abrantes, a exposição apresenta obras de António Bolota, António Júlio Duarte, Carla Filipe, Dayana Lucas, Fernando Brito, Filipa César, Gonçalo Pena, Isabel Carvalho, João Jacinto, João Maria Gusmão + Pedro Paiva, Miguel Soares, Patrícia Almeida, Paulo Mendes, Pedro Neves Marques, Pedro Tudela, Silvestre Pestana, Vasco Araújo e Von Calhau!

Obras de João Maria Gusmão + Pedro Paiva (ao fundo, à esquerda) e de Pedro Neves Marques (à direita)

Para além do seu lugar e época, qualquer prática artística e expositiva tem em si uma medida de fixação temporal e uma expectativa de memória. Com a afirmação da relevância e a convicção da permanência das suas escolhas, «Memórias Futuras» pretende também interrogar a experiência do tempo. Não propriamente da temporalidade do fazer ou da duração do ato de ver, mas de um exercício de projeção e de visão que lança já um olhar retrospetivo para o futuro, desconstruindo a ordem lógica e linear na consideração do tempo. Nesse sentido, a exposição assume a complexidade plástica, maleável do tempo, vislumbrando a continuidade mas também a simultaneidade, a progressão mas também a inversão, o arrastamento, os saltos, os retrocessos ou os desvios que a nossa perceção pode abarcar ou intuir. Sabemos como acontecimentos marcantes como a pandemia que vivemos atualmente podem distorcer a perceção normal da passagem do tempo. As suas datas, tal como a sua medição e duração, podem ser relativas. E, abstraindo-nos do presente, podemos viver no (e do) passado ou futuro. É a partir destas premissas que olhamos o conjunto de trabalhos presentes na exposição «Memórias Futuras».

Obras de Isabel Carvalho (pormenor, à esquerda) e António Júlio Duarte.

No seu vaivém, interessa-nos certamente perspetivar o que hoje estas obras nos dizem acerca do passado, do presente e do futuro, mas sobretudo imaginar e refletir sobre as possíveis leituras que propiciarão amanhã: as condições históricas e o sentido crítico que manifestam no plano cultural, sociopolítico, tecnocientífico e ambiental, as diferentes expressões documentais e ficcionais das construções da memória e da identidade, as aproximações autobiográficas e coletivas às histórias e modos de pensamento e vida da sociedade contemporânea, a par das dimensões experimental, estética, metafórica, narrativa e simbólica implícitas às suas pesquisas e abordagens plásticas.

Obras de Vasco Araújo (primeiro plano); Patrícia Almeida (parede) e Isabel Carvalho (em cima)

O que lembraremos do presente é também o que o presente continuamente lembra do futuro que imagina. Por iniciativa do Governo, através do Ministério da Cultura, foi retomada uma política pública de aquisições para a Coleção de Arte Contemporânea do Estado, que privilegia a criação nacional e a respetiva fruição em todo o território, através da constituição da Comissão para a Aquisição de Arte Contemporânea, em 2019, e da afetação anual de uma verba para a aquisição, a qual tem sido progressivamente reforçada. Com as obras de arte agora apresentadas pela primeira vez enquanto conjunto, que correspondem ao programa de aquisição de arte contemporânea referente a 2019, a Coleção de Arte Contemporânea do Estado vê o seu momento presente iluminado, não apenas pela definição do seu reforço artístico e patrimonial, como ainda por uma estratégia de verdadeira descentralização territorial do seu acervo, de que as cidades de Coimbra (2020) e Abrantes (2021) constituem os primeiros exemplos.

Obra de Silvestre Pestana
Obra de António Bolota

Assim, entre a perspetiva de recuperação de uma visibilidade sobre esta Coleção que o Estado Português iniciou em 1976 e a projeção a médio e longo prazo do seu investimento e ampliação, sairão beneficiados, por certo, não apenas os públicos, como o sistema da arte portuguesa contemporânea, sublinhando-se a ideia fundamental que só consolidando políticas continuadas ao nível da cultura poderemos construir um futuro capaz de favorecer o exercício crítico da cidadania. Só uma visão plural e desassombrada do passado pode abrir caminho a uma consciência do presente ou à imaginação desse futuro para o qual queremos contribuir. As obras de arte em diálogo aqui apresentadas desenham, por isso, a constelação inicial de uma nova vida desta Coleção e, ao mesmo tempo, a “memória futura” dos sinais que nela já se anunciam.

Curadoria: David Santos, Manuel João Vieira, Sandra Vieira Jürgens, Sara e André.

Obras de João Jacinto (à esquerda); Dayana Lucas (ao centro) e Pedro Tudela (ao fundo)
Obras de Fernando Brito (ao fundo), de Isabel Carvalho (em cima), Vasco Araújo (primeiro plano) e Gonçalo Pena (à direita)
Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, Abrantes

«De que é feita uma Coleção? Tensão e Narratividade», Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, Setembro 2021 a Março 2022

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A terceira exposição deste ciclo procura aproximar obras que intrinsecamente têm narrativas vincadas e que colocam em tensão ou em diálogo a imagem e a palavra. Essa leitura de carácter dialético, entre conjuntos e intervalos de valores, favorece igualmente a análise comparativa entre obras de diferentes períodos históricos recentes, desde o primeiro modernismo até à contemporaneidade.

Obras de Shirin Neshat e Daniel Canogar (ao fundo)

Assim, o Centro de Arte Contemporânea de Coimbra investiga e propõe leituras em torno da Coleção de Arte Contemporânea do Estado em depósito no Município de Coimbra, por forma a clarificar a sua reunião, na afirmação de uma hospitalidade incondicional, para a criação de um espaço de subjetividade comum.

A exposição apresenta obras de Álvaro Lapa, António Olaio, António Sena, Baltazar Torres, Daniel Canogar, Eduardo Luiz, Emerenciano, Gerardo Burmester, Helena Almeida, Joana Rêgo, Joana Rosa, João Pedro Vale, João Penalva, João Tabarra, João Vieira, Lawrence Weiner, Matt Mullican, Nikias Skapinakis, Pedro Casqueiro, Pedro Gomes, Pires Vieira, René Bértholo, Rodrigo Oliveira e Shirin Neshat.

«De que é feita uma coleção? Fluxo e Metamorfose», Centro de Arte Contemporânea de Coimbra, Abril a Agosto 2021

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A segunda exposição (abril a agosto de 2021) do ciclo “De que é feita uma coleção?”, definida a partir dos conceitos “fluxo” e “metamorfose”, coloca em diálogo obras diversas, materializado  por dinâmicas formais e cromáticas de livre explanação na superfície, assim como por experiências informais, de surpreendente registo criativo. Sensualista e orgânica, a arte que ousa uma metamorfose entre figuração e abstração recupera, seja pela matriz do inconsciente ótico ou pela força da sua transformação, uma espécie de ordem original da criatividade visual, empenhada na esfera de uma liberdade absoluta, marcada ainda por essa fluidez da imaginação que nos mantém atentos ao jogo estético.

Obras do grupo Art & Language e, ao fundo, de Miquel Barceló

Em exibição estão obras de Andy Denzler, Antoni Muntadas, Antoni Tàpies, António Dacosta, Art & Language, Carlos Calvet, Eduardo Batarda, Eduardo Nery, Fernando Calhau, Francisco Laranjo, Frank Thiel, Helena Almeida, Ilda David, Jason Martin, João Hogan, João Paulo Feliciano, Manuel Casimiro, Mário Cesariny, Menez, Miquel Barceló, Nadir Afonso, Nikias Skapinakis, Pedro Calapez, Pedro Chorão, Peter Zimmermann, Pia Fries e Vespeira.

Obras de Antoni Muntadas (à esquerda) e Frank Thiel

Obra de Eduardo Batarda

«A Liberdade e a Europa: uma construção de todos», Parlamento Europeu, Bruxelas, Janeiro a Junho 2021

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Entre Janeiro e meados de Junho de 2021, no Parlamento Europeu, em Bruxelas, a exposição “A Liberdade e a Europa: Uma construção de todos”, organizada pela Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, colocou em diálogo duas importantes coleções de arte: a Coleção de Arte Contemporânea do Estado Português e a Coleção do Parlamento Europeu.

Obras de Julião Sarmento, Jorge Martins e Pedro Calapez

A Europa, a liberdade da arte e a sua sociabilidade específica

Instintivo, reflexivo, reivindicativo ou legislativo, o conceito de liberdade humanista está na base do pensamento moderno europeu, pelo menos, desde o Iluminismo. Na sua dimensão filosófica, política e social, o exercício pleno e responsável da liberdade traduz a emancipação do ser humano no uso racional do livre arbítrio, constituindo-se ainda, apesar da sinuosidade titubeante da sua consolidação, como bandeira essencial no quadro da Europa contemporânea. E tal como em 1955, no contexto do pós-guerra, Jean Monnet declarava: “fazer a Europa é fazer a Paz”, o “sonho europeu” hoje concretizado exige igualmente a defesa quotidiana da liberdade como valor intrínseco à sua identidade cultural. O conjunto de valores que daí advêm, conduz um projeto plural e complexo que a todos responsabiliza face ao compromisso de paz fundador da União Europeia e da sua ideia de uma comunidade de Estados. Nessa medida, o empenho dos artistas na construção do valor da liberdade deve aqui ser sublinhado como um dos contributos mais persistentes e subliminarmente influentes, definido entre a vontade individual e a vida coletiva das sociedades.
Na verdade, a arte tem vindo a conquistar nos últimos dois séculos uma importância decisiva na expressão ética da liberdade humana. Desde o período romântico, com a afirmação exponencial da criatividade individual, e o valor da sua idiossincrasia, a arte projetou-se, lenta mas progressivamente, como um campo aberto ao desenho de todas as liberdades, a partir dos seus contributos particulares e da sua inegociável diferenciação, que contrariava as convenções do ensino artístico e os seus protocolos de valorização em torno da uniformização técnica, moral e expressiva. Se, desde aí, a cada artista foi dado espaço para a confirmação de uma liberdade que converteria a arte moderna num dos grandes palcos da sua consciencialização prática, ativada afinal em cada obra e exposição, isso traduziu uma força de manifestação do experimentalismo e da ousadia essenciais ao progresso social que a Europa representa. Cada obra é diferente das demais, cada artista apresenta valores éticos distintos, propostas estéticas e conceptuais necessariamente diferenciadoras, promovendo assim um profundo sentido da pluralidade humana e das suas infinitas hipóteses de significação.

Obras de Eduardo Batarda e Maria Helena Vieira da Silva

Ao mesmo tempo, uma obra de arte existe também como fator de agregação ou comunicação humana, na intersubjetividade desencadeada entre os seres humanos que se disponibilizam para esse efeito relacional de sociabilidade. Note-se que, como defende o curador francês Nicolas Bourriaud, “a arte sempre foi relacional em diversos graus, ou seja, como factor de sociabilidade e fundador de diálogo”, e se a imagem artística assumiu como virtualidade o seu poder de conexão entre criador, obra e recetor, a verdade é que, ao contrário da televisão ou mesmo da literatura, que remetem para o sentido da experiência privada – e se inclusivamente o cinema e o teatro, apesar de convocarem o coletivo, apenas deixam espaço à discussão após o termo do espetáculo –, “a arte (as práticas derivadas da pintura e da escultura que se manifestam sob a forma de uma exposição) presta-se particularmente à expressão desta civilização de proximidade, dado que reafirma o espaço das relações”, pois apresenta-se sempre no espaço público da arquitetura, da praça à galeria, produzindo “empatia e sentimento de partilha, gerando assim
vínculos”1 . Com efeito, avança Bourriaud, “numa exposição, mesmo quando se trata de formas inertes [em pinturas, esculturas ou objetos], estabelece-se a possibilidade de uma discussão imediata, nos dois sentidos da palavra: eu percebo, eu comento, eu discuto, num mesmo espaço-tempo. A arte é o lugar de produção de uma sociabilidade específica”, desenvolvendo assim, na verdade, o sentido e o aprofundamento da obra de arte como um “interstício social.”2

Inauguração a 20 Janeiro 2021, com a presença do Presidente do Parlamento Europeu David Sassoli, do Primeiro Ministro António Costa e do Curador da Coleção do Estado David Santos


No fundo, a arte será talvez apenas mais um modo específico de conhecimento ou de elaboração estética e cognitiva em sociedade e, enquanto tal, promoverá sobretudo, nesse diálogo, uma transformação individual do sujeito recetor. Podemos defender, por isso, seguindo o pensamento de Jacques Rancière, que a arte não transforma de um modo direto os destinos da sociedade e o seu trânsito político, mas apenas o nível da experiência sensorial e intelectual de cada um dos observadores. Dessa forma, porém, a obra de arte tenderá a refletir-se na mundividência e na ação quotidiana do recetor, como espécie de alargamento ou ampliação do seu sentido crítico, na complexificação dos significados da arte e da vida, preparando-o, por exemplo, para uma mais consciente ação de cidadania.3

Obras de Nikias Skapinakis e Paula Rego (pormenor)

Por isso, a obra de arte deve ser a expressão ou a experiência do princípio da liberdade, pois só desse modo poderá enfrentar todas as espécies de dogmas e estereótipos, e cumprir uma das suas funções mais dignas, promover o aprofundamento da sensibilidade e da consciência de cada um na sua relação com o outro (individual ou coletivo). Recuperemos, a propósito, as palavras de Brian Holmes: “numa época saturada pelos meios de comunicação social e pela publicidade, a dimensão estética tornou-se uma zona decisiva de interação social.”4 Será essa “interação”, essa
«sociabilidade específica» e «relacional» que a arte contemporânea aqui presente pretenderá subtilmente ativar. Sublinhe-se que os espaços institucionais ou informais que promovem a arte representam uma simbologia de legitimação onde as exposições constituem o principal espaço de troca na economia política da arte, e onde o sentido é construído, mantido e, por vezes até, desconstruído. Em parte espetáculo, evento social e histórico ou dispositivo de estruturação, as exposições — especialmente de arte contemporânea — estabelecem e administram os significados culturais da arte. Não esqueçamos, por essa razão, que as exposições administram igualmente a criação de momentos de discussão e debate público, em interação com as propostas artísticas, mas também com as diferentes leituras nesse contexto produzidas, que se traduzem sempre na assimilação individual que cada um dos observadores faz dos significados que transitam nesse espaço.

Parlamento Europeu, Bruxelas, Janeiro 2021

Por outro lado, as obras de arte contemporânea de artistas portugueses que podem ser observadas na presente exposição do Parlamento Europeu, representam todas elas, afinal, uma hipótese de reconhecimento e ativação do exercício da liberdade, tanto a liberdade ética que conduziu os criadores aos seus modos particulares de afirmação artística, como a liberdade de interpretação de cada um dos seus observadores ocasionais, mesmo que esta última esteja em parte condicionada pelo vínculo proposto na assinatura curatorial. Mas em torno de um conjunto de vinte obras, pertencentes, em partes iguais, à Coleção do Parlamento Europeu e à Coleção de Arte Contemporânea do Estado Português, a curadoria definiu um jogo de combinação estética, reflexiva e emocional, cujo aparato será ele próprio o resultado da liberdade que define a sua ação no espaço europeu em que vivemos. Deste modo, podemos observar como a liberdade de cada um implica sempre com a liberdade de todos, exigindo-nos a cada dia a sua defesa, mas também o seu uso consciente e responsável. Só assim poderemos continuar a construir uma Europa de valores, livre e solidária.


David Santos
Curador da Coleção de Arte Contemporânea do Estado


1 – Nicolas Bourriaud, Esthétique relationnelle (1998), 3rd ed. Paris, Les presses du réel, 2001. p. 47
2 – Idem, p. 48.
3 – Jacques Rancière, O espectador emancipado (2008) (trad. portuguesa: José Miranda Justo). Lisbon, Orfeu Negro, 2010.
4 – Brian Holmes, ‘A arte e o cidadão paradoxal’, in Às Artes, Cidadãos. Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves, 2010, p. 83.