«Personagens e Intérpretes»: uma retrospectiva de João Penalva

Publicado a 21 Abril 2026
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Inaugurou na última sexta feira, dia 17 de abril, a exposição retrospetiva Personagens e Intérpretes, de João Penalva, na Culturgest. O conjunto de 13 obras inclui três que fazem parte da CACE — todas elas instalações.

Fotografias de Raquel Montez cedidas pela Culturgest

Em Viúva Simone (1996), estamos perante uma obra composta por vários elementos: fotografia, texto (manuscrito e impresso), vídeo, equipamentos tecnológicos e até barras de ballet.

Este tipo de obras, feitas de diferentes partes que se relacionam entre si, com o espaço e com o público, ficam como “adormecidas” quando estão guardadas nas reservas da coleção. A sua matéria é preservada, mas a obra só ganha vida quando é instalada. Por isso, é sempre especial vê-las novamente em exposição. No caso de Viúva Simone, já não era apresentada desde 2011.

Esta obra marca um momento de regresso e de rutura na carreira de João Penalva, cruzando a sua memória biográfica como bailarino profissional com a ficção artística. O projeto original pretendia reinterpretar a Dança dos Tamancos (da peça La Fille Mal Gardée), mas a negação dos direitos de autor forçou o artista a reformular o trabalho em torno da questão da autoria e da memória corporal.

Já Wallenda (1997) é uma instalação que exemplifica a metodologia de João Penalva: a definição de um desafio aparentemente simples que exige um processo de resolução complexo e obstinado. O ponto de partida é a transposição da partitura de A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, para o domínio do assobio.

A obra é composta por fotografias, anotações musicais crípticas e cábulas que documentam a aprendizagem do artista, acompanhados por uma linha de texto na parede que serve de metáfora temporal para o projeto, bem como por um loop de vídeo de 16 segundos que mostra o equilibrista Karl Wallenda, momentos antes da sua queda fatal, em 1978, em Porto Rico, e um analisador de espectro sonoro traduz visualmente os 30 minutos de assobio.

Fotografias de Raquel Montez cedidas pela Culturgest

A terceira obra, que dá título a exposição, explora as fronteiras porosas entre a realidade e a ficção, questionando os conceitos de originalidade e identidade. Personagem e intérprete (1998) centra-se num antigo guarda-vestidos que serve de suporte a dois projetores de slides e microfones que amplificam o som mecânico da passagem das imagens, reforçando a natureza construída da narrativa.

O conteúdo visual consiste numa sequência não cronológica de fotografias de uma mulher não identificada. Através de imagens a preto e branco e a cores, que atravessam décadas e contextos, somos confrontados com a capacidade camaleónica desta figura. Ela assume múltiplas poses e aparências, remetendo para uma vasta iconografia feminina que oscila entre a atriz, a modelo e a pessoa real.

Fotografias de Raquel Montez cedidas pela Culturgest

A exposição comemora os 50 anos de produção artística de João Penalva e fica aberta ao público na Culturgest em Lisboa, bem como no Pavilhão Branco das Galerias Municipais de Lisboa, até 12 de julho de 2026.


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