Miguel Palma explora frequentemente experiências de reconhecimento quando transpõe para o contexto artístico situações do mundo real. É o que acontece em Avião (1997), onde através de um modelo de aeronave e de uma paisagem miniaturizada, simula a percepção do mundo exterior numa viagem aérea. É um dispositivo simples, mas que na sua virtualidade procura abranger, decompondo-o, o vasto universo físico e psicológico experimentável na viagem. Assim, por exemplo, o efeito que a distância exerce sobre a nossa percepção é sugerido pela escala reduzida da paisagem, cujo desfile num sistema volante parece traduzir, não sem humor, a sensação de deslocamento exterior experimentada quando idealmente nos situamos num ponto fixo, em redor do qual tudo se move e organiza. É pelo desordenamento desse eixo e das suas expectativas que Miguel Palma problematiza, mediante apontamentos subtis, algumas das certezas funcionais da cultura contemporânea. A monotonia da paisagem, figurada a partir de um relevo sempre plano e com uma variação mínima de elementos, contraria a noção de mudança associada à deslocação. A ideia de abertura a novos horizontes de vida, novas paisagens, novas culturas, outros mundos, motivações implícitas ao ideal da viagem, são negadas pela dinâmica da repetição, multiplicada com o auxílio da projecção em vídeo da imagem do trajecto. Ao movimento contínuo corresponde uma deslocação ilusória, que torna a viagem absurda. Como se ao viajante moderno fosse negado qualquer indício do enriquecimento espiritual que associamos à transposição temporária dos nossos limites quotidianos. Escolhidos segundo uma lógica de consumo, os destinos da viagem acenam para lá de uma distância preenchida, não de diferenças, mas de um indistinto reconhecimento que se vai esbatendo e olvidando. O tempo, vencido pela rapidez metódica dos transportes, divorcia-se da demora que permite as memórias e da fruição que predispõe à experiência. O efeito caricato, em Avião, dessa espécie de contingência do aparelho papa-paisagens transportando um viajante cego aos espaços e insensível aos tempos que percorre põe a nu a futilidade implícita de uma circulação assente na massificação dos circuitos. Daí que um sentimento de perda envolva esta cristalização do imaginário, de uma cada vez mais impossível relação singular com os lugares. Avião não se limita, porém, a interrogar os paradigmas do progresso e mobilidade alcançados neste século. O processo de desmistificação encenado por Miguel Palma vai assinalando, ironicamente, o sentido perverso das representações unitárias e estáveis em que encerramos o princípio da realidade e salienta, em contrapartida, o carácter relativo e contingente dos nossos pontos de vista. [Sandra Vieira Jürgens]
Exposições coletivas
2000: Initiare, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal
2001: URBANLAB, Bienal da Maia _ 2001 [short cut], URBANLAB FACTORY (antiga Fábrica Fimai), Maia, Portugal
2004: Eu, Tu, Eles, Centro de Artes e Espectáculos (CAE), Figueira da Foz, Portugal