No texto que acompanha a obra The cooling effect of wind and temperature (1995-97) Fernando José Pereira aflora a questão do sublime na perspectiva kantiana. E é através da referência à experiência do artista/alpinista que, para além da emoção da chegada ao cume da montanha, sublinha a frustração e a dor perante a incapacidade de “presentificar” ou de registar a experiência sensível num determinado suporte. Tentando formular visualmente as considerações aí expostas, Fernando José Pereira expõe em vitrines, entre material editorial, ventoinhas e uma base de dados informáticos, diverso equipamento desportivo ligado à prática do alpinismo. Da análise das peças que integram a instalação, é possível verificar que todas se apresentam desprovidas de marcas expressivas, e mesmo de qualquer aura que lhes afirme a sua singularidade. São aparentemente objectos comuns, reunidos mediante um exercício de apropriação que se furta ao domínio da acção representativa. A sua apresentação, como artefactos inalterados, marca uma objecção a outra das premissas fundamentais da arte ocidental e privilegia, em detrimento das possibilidades expressivas e representativas, «o primado da ausência imagética, a par da utilização objectual como paradigma do simulacro». É esta mesma ideia que surge reforçada num texto intitulado Sobre arte, reciclagem e chips electrónicos na época da compressão do tempo (1998), quando Fernando José Pereira nomeia, a partir de uma correspondência com o processo de reciclagem, uma nova categoria de objectos, os «already-used/for use (já usado/ainda por usar)». Uma qualidade de objectos que, segundo o autor, pode constituir alternativa à criação desenfreada de obras no mundo da arte, simultaneamente, visando a superação das instâncias de transposição simbólica e de representação. É que estando estes objectos destituídos de uma nova significação, de qualquer inscrição, e mesmo da carga enunciativa veiculada pela assinatura do autor, características que os remeteriam definitivamente para uma existência artística, eles usufruem, por isso, de uma condição transitória que lhes possibilita a passagem de um universo para outro. Ou seja, é-lhes dado permanecer, enquanto objectos não transfigurados, no sistema da arte; e usufruir ao mesmo tempo de uma relação mais estreita com o mundo exterior dos objectos comuns. E como o termo «use» assinala, mantém-se sempre em aberto a questão do seu uso futuro. [Sandra Vieira Jürgens]
Exposições coletivas
2000: Initiare, Centro Cultural de Belém, Lisboa, Portugal
2003: Continuare – Trabalhos da Coleção IAC, Bienal da Maia – Maia: Centro Comercial Venepor e Fórum da Maia, Portugal
2004: Eu, Tu, Eles, Centro de Artes e Espetáculos (CAE), Figueira da Foz, Portugal
2004: Inexterioridades, Auditório de Galicia, Palacio da Opera, Exposición e Congressos, Santiago de Compostela, Espanha